Wednesday, 19 June 2013

Sousa Mendes' List

Ontem estive em Bordéus. Foi aqui (e mais tarde em Bayonne) que Aristides Sousa Mendes foi cônsul de Portugal antes do inicio da II guerra mundial e salvou milhares de refugiados(contam-se pelo menos 30.000 pessoas entre os quais 10.000 judeus). Decidi perguntar a algumas pessoas, neste caso, 10 habitantes locais, todos com mais de 40 anos (embora não seja estatisticamente relevantes vale a pena não rejeitar) se conheciam este senhor, relevantíssimo herói da historia da II Guerra Mundial, por sinal Português. E, para meu espanto, nenhum deles conhecia Aristides de Sousa Mendes, nem da casa onde ele vivia nem sobre o que aconteceu naquela mesma cidade entre 1939 e 1940. (Os Portugueses que eles conheciam era os mestres de obras, amas de casa, e todos os que ajudam todos os dias a construir a França, mas o Aristides, esse não conheciam).

Porque é que me senti desiludida com isto? (infelizmente os dedos das mãos não chegam para contar quantas outras vezes já passei por situações parecidas a esta.

Porque é que o Steven Spielberg, quando decidiu fazer um dos seus melhores filmes (uma obra-prima se preferirem) sobre um alemão que salva 1.300 judeus e lhe concede notoriedade mundial, transformando-o num dos mais aclamados heróis da II Guerra Mundial, não investigou melhor? Descobriria um outro homem, também herói, mas que em vez de 1.300 judeus salva 30.000 pessoas das mesmas garras dos Nazis.
Poderíamos argumentar que a história de Schindler é mais rica, mais dramática e que originaria um melhor filme.
Partindo dessa premissa, vejamos os argumentos. 1. Que pode ser mais dramático que um cônsul, que já tinha exercido funções em regiões exóticas como a Guiana Britânica, Zanzibar e Brasil, reconhecido oficialmente pelo Rei da Bélgica, amigo do próprio Einstein que conheceu na Bélgica; versus um industrial que se muda para a Polónia com ajuda da SS e da gestapo para ganhar dinheiro numa fábrica que produz armamento com mão de obra barata ("judia") dos campos de concentração. 2. Aristides teve 14 filhos com Maria Angelina. Schindler não teve nenhum, era jogador, um homem que sempre teve amantes, mas esta parte nem sequer é mostrada no filme. 3. Interessantemente Schindler chegou a pertencer ao partido Nazi (registo de 1938) e foi apenas em 1943, que algum episódio dramático o marcou e ele começa a ajudar os seus trabalhadores a fugir. 4. Em relação a punições, Sousa Mendes foi castigado com processos disciplinares por Salazar tendo-lhe sido retirada a carreira diplomática e possibilidade de exercer advocacia; seus filhos foram perseguidos e obrigados a emigrar. Aristides Sousa Mendes, anónimo para Israel e para a comunidade judaica acaba por morrer na miséria. 5. Schindler não tem de ir para a cadeia graças aos depoimentos de judeus, e quando acaba a guerra ele e a sua mulher vão para a Argentina; foram reconhecidos em vida pela comunidade judaica tendo-lhes sido concedido uma pensão vitalícia.

Não estou a julgar o Sr. Schindler, a quem temos muito a agradecer, mas a minha verdadeira questão é porque é que não foi feito o (Sousa) Mendes' List em vez do Schinlder's List? Já vimos que não foi pelo argumento, também não foi pelo numero de pessoas salvas, nem pelas consequências dos seus actos ou seja não foi pela riqueza do argumento. Talvez uma das razões seja porque o livro sobre Schindler tenha escrito por Thomas Keneally em 1982? Talvez.
Mas a verdade é que tarde ou cedo, Sousa Mendes foi reconhecido em 1966 como "Righteous Among the Nations", honra concedida por Israel e finalmente em 1988, todas as queixas e processos contra Sousa Mendes, são retirados pelo Governo Portugues. E mesmo assim, de todos os livros escritos e publicados na França da II Guerra, nenhum, repito, NENHUM, fala deste homem.

Pensemos em conjunto? Será que esta história tem muito ou pouco que ver com Portugal? Será este mais um exemplo que demonstra não sabermos construir marcas em Portugal?

continua.




2 comments:

  1. E se perguntasse não a 10, mas a 20 ou 30 ou até 50 Portugueses na rua, quantos saberiam quem foi Aristides Sousa Mendes?
    Como quer que os de Bordéus saibam?

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  2. Não querendo ser negativa, é muito capaz de ter razão.
    De qualquer forma foi feito um filme recentemente em Português (2012) e este passado mês de Maio foi feita uma visita organizada pela Fundação Aristides Sousa Mendes a Bordéus e depois Portugal; os visitantes eram alguns dos refugiados e outros casos descendentes deles.

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