Ontem estava a ouvir uma das minhas músicas favoritas para jogging quando decidi ouvir, realmente ouvir a letra da música. Esta música, escrita em 1985, pela incrível Annie Lennox, qu não só é uma das mulheres mais influentes na indústria discográfica da actualidade é também conhecida pelo seu activismo politico e filantropia. O dueto cantado pela própria Lennox e uma poderosa Aretha Franklin está cheio de boas intenções e continua a ser uma dos hinos feminista mais conhecido.
Mas infelizmente uma música que está cheia de boas intenções, querendo celebrar a consciente liberação do estado feminino (“ this is a song to celebrate the conscious liberation of the female state") acaba por cair numa serie de "clichés" que não ajudam em nada a liberação da mulher, chega mesmo a julgar-nos. A comemoração das mulheres médicas, advogadas e até mesmo políticas chega uns 50 anos atrasada.
Quando Lennox diz que as mulheres estão a sair da cozinha (“So we're comin' out of the kitchen”) e que têm um novo exterior (“The inferior sex has got a new exterior”) que é que realmente quer dizer? Que as mulheres precisaram de um banho de loja? Mas é na parte final que afirma que afinal os homens não se têm de preocupar porque as mulheres continuam a gostar deles e os homens podem continuar a gostar delas, da mesma maneira (“don’t worry, fellas, we aren’t plotting anything crazy! “A man still loves a woman and a woman still loves a man”)
Longe de mim criticar a Dame Annie Lennox, que tanto admiro e que é uma grande inspiração para mim desde que me conheço. O meu ponto é outro, quero chamar a atenção para mensagens bem intencionadas que nem sempre são bem conseguidas.
Mas temos outros exemplos na música. Algumas delas que cantarolamos, dançamos e nem nos damos conta das letras que não são nada positivas para a igualdade das mulheres na sociedade.
Vejamos o caso de duas músicas da estrela Beyoncé. Ambas escritas em 2008 (!) “Single Ladies” e If I Were A Boy” chegam mesmo a ser catastróficas para a luta da igualdade de géneros. Na primeira, a Beyoncé confiante e segura, diz ao seu ex-namorado que está agora a fazer o seu próprio caminho mas depois de ter chorado três (!) anos (“Just cried my tears, for three good years”). Até aqui, tudo bem; sabemos que há relações e perdas que nunca chegam a ser superadas…Mas objectifica-se quando diz “'Cause if you liked it, then you should have put a ring on it”, em que ela é o “It” e que aparentemente o que uma mulher quer é compromisso e um anel, famoso talismã que garante finais felizes(!). Afinal o que ela quer é um homem que se comprometa. Como o ex não o fez, ela arranja outro que faça. Isto sempre, independentemente da relação funcionar ou não, pois termina dizendo que se ele não se compromete ela desaparece como um fantasma (“ If you don't, you'll be alone, and like a ghost, I'll be gone”). Na segunda música, há um interessante jogo de géneros (em tom de Tootsie) mas que acaba por ser usado não para realmente ter uma experiencia de género per se, mas para chamar a atenção e potencialmente corrigir aquilo que ela não gosta do seu parceiro, melhorando a sua relação “ideal” homem-mulher. Acaba por cair num estereótipo que para nada reflecte (ou deveria) a sociedade ocidental do séc. XXI.
É tão importante que as porta-vozes, lideres de opinião famosas, que são ouvidas e seguidas por milhares, se não mesmo milhões de jovens e adultas, tenham atenção as mensagens que comunicam. Todas nós anónimas temos responsabilidade, mas as figuras públicas tem uma responsabilidade acrescida e devem ter extra cuidado.
Afinal, estas são mensagens que podem mesmo alterar a história e a igualdade de géneros das próximas décadas.
No comment...
ReplyDelete