A forma das pessoas se relacionarem na sociedade chinesa está muito mais próxima da portuguesa do que eu imaginava.
O objectivo de hoje é em primeiro lugar provar esse paralelismo e em segundo lugar concluir, que Portugal pode ser estratégico na aprendizagem de Ocidente-Oriente. Vejamos por partes. O Guanxi, que em tradução directa significa “relações” tem muito mais que ver “onde socialmente” as pessoas nascem e quem conhecem e menos com habilitações ou competências.
Pois se observarmos a sociedade portuguesa hoje, há 100 anos ou há 500 anos, dificilmente um cidadão português de classe média/baixa, vulgo comum, consiga ter acesso aos mesmos contactos ou serviços caso não pertença a determinada rede de amigos e conhecidos (vulgarmente chamado de network).
Hoje contou-me a Yu Xin, que em Portugal é minha professora de mandarim, mas que por acaso é economista. Ela veio para Portugal há 6 anos para acompanhar o seu namorado. Ele também de Shanghai e depois de 2 anos em UK a fazer o seu MSc., ele concorreu e conseguiu uma bolsa da Fundação de Ciência e Tecnologia (FCT) para o seu Doutoramento (PhD) em Telecomunicações. Eles foram pais de um bebé há 2 meses e ela dirigiu-se à instituição de direito para pedir o Passaporte Português do seu filho, e sem lhe darem qualquer tipo de informação ou ajuda, negaram-lhe o pedido e ela concluiu que afinal queriam mesmo era “despachá-la”.
Ora bem, se ela fosse talvez (repito, talvez) do corpo diplomático, CEO, COO, directora duma empresa Portuguesa (ou até melhor, Chinesa), ou talvez (mais uma vez talvez) vivesse em Cascais ou na Quinta Patino talvez isto não tivesse acontecido desta forma. Porque muito provavelmente a Yu Xin teria conhecido (nos vizinhos, no trabalho, enfim na sua rede social) alguém que conheceria alguém que trabalharia no Ministério da justiça ou no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e que claramente ajudaria e (quem sabe) talvez até aceleraria todo o processo.
Não pretendo com este texto criticar a forma nem a sociedade Portuguesa nem Chinesa, relembro que o objectivo do texto é primeiramente provar algum tipo de paralelismo entre Guanxi e “cunha”. Creio que isso foi alcançado. Este é apenas um de muitos exemplos….
Outra questão importante analisar são quais os pontos e fatores determinantes para que um gestor seja bem-sucedido na sociedade Chinesa.
1. Oportunidade. Entenda-se por oportunidade circunstância, conforme Ortega y Gasset. O facto de nascer em determinado país, meio social, ou de conhecer determinadas pessoas durante o percurso da vida, são e podem ser fundamentais no sucesso de determinada pessoa ou negociação; este ponto é fundamental não só na sociedade chinesa, mas em qualquer uma. Este ponto é transversal.
2. Paciência e respeito pela cultura. A sociedade chinesa aprecia que as propostas, a forma de trabalhar seja largamente acompanhada de refeições, discussões (às vezes consideradas pelas mentes mais pragmáticas de “intermináveis”) à volta do mesmo tema. Este ponto é fundamental e é muitas vezes difícil de entender para as sociedades anglo-saxónicas, mas a verdade que é os chineses não acreditam que conseguem trabalhar com pessoas que não sejam amigos. Ora bem, uma pessoa só passa de conhecida a amiga, quando há confiança; a confiança só se ganha com compromissos de ambas as partes, e claro, tempo. Esse tempo pode ser passado em refeições, banquetes e conversas. Muitas vezes envolve passar tempo com a família e até ajudar membros da família a atingir determinado objectivo ou determinado contacto. O respeito tem directamente que ver com a necessidade de conhecer as tradições e normas da sociedade chinesa, como seja onde se sentar num banquete ou nunca perguntar o que é a comida e aceitar com um sorriso e provar. Sempre!
3. Perseverança mas sem falhar. A perseverança é factor que creio também aplicável a muitas outras sociedades se não a todas. Hoje em dia, para sermos bem-sucedidos devemos ser persistentes, caso contrário não vamos a lado nenhum. Não quer com isto dizer que devemos ou que temos o direito a falhar. Muito menos o direito a dar parte fraca.
O exercício agora será voltar a ler os três pontos acima mas lugar de pensarmos na sociedade Chinesa, aplicar os exemplos à nossa sociedade Portuguesa. A verdade é que são incrivelmente parecidas.
Creio que com isto posso concluir que Portugal, sendo um país ocidental e do sul da Europa, onde vivem Portugueses, um dos povos mais hospitaleiros e de fácil trato do mundo, pode servir e ter aqui uma vantagem competitiva que é alavancada em treinar executivos anglo-saxónicos na sua integração (talvez mesmo em tom de estágio) no caminho para a China.
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